domingo, 5 de Abril de 2009

ONTEM COMO HOJE

(...)

Portugal é um dos raros paizes da Europa onde os proprios indigenas mais desconfiam do proprio talento e da propria iniciativa. Ha espalhado pelo reino um bando de insignificantes - que eu desejaria ver levados em chusma para a forca! - que teem por unico officio dispôr d'um sorriso de desdem e d'uma phrase de troça, diante de tudo quanto se queira emprehender de original e de superior. E este bando não só se introduz nas questões litterarias, artisticas ou scientificas com um atrevimento e uma impudencia dignas de varios marmelleiros em lombos de taes criticos, - mas tambem se insinua nas industrias, no commercio e na agricultura, levando a toda a parte o desanimo, convencendo todos os que trabalham que não passam d'uns imbecis, de quem a Civilização se ri todas as manhãs, ao abrir a janella do seu quarto!

Este bando da má-língua, este grupo obsceno dos descrentes, exerce uma tal influencia sobre os espiritos e tem-se de tal modo introduzido na imprensa, ostentando um pessimismo idiota e de contrabando, - que é necessario que todo aquelle que trabalha disponha d'um grande orgulho individual e patrio, para produzir alguma cousa e romper. O artista modesto e pouco audacioso, esse necessariamente fica a meio do caminho. A má-lingua mata-o em duas horas...

(...)

Quando um maestro portuguez escreve uma opera e deseja fazel-a cantar em S. Carlos, o director do theatro começa por lhe fechar todas as portas; o ministro manda-lhe dizer pelo continuo que o não pode receber; e os criticos riem-se d'elle á porta da Havaneza. E é necessario que o artista faça cantar a sua opera no extrangeiro e seja ahi applaudido... para então o tomarem a serio.

(...)

É necessario comprehendermos que somos um povo estropiado por mil falcatruas politicas, - mas que dispomos d'uma grande força e d'uma grande riqueza como povo agricola e industrial, e que não somos nenhuns intrusos quando nos desejamos ocupar de todas as manifestações do pensamento humano!...

Mariano Pina, in A ILLUSTRAÇÃO, 2.º Anno, Volume II, Numero 15, 5 d'Agosto de 1885.


»« TRADUÇÃO PARA A LÍNGUA E O CONTEXTO PORTUGUÊS CONTEMPORÂNEOS: tal qual, basta que se actualize a ortografia, se mude «reino» por «república» e se rasure «dispomos d'uma grande força e d'uma grande riqueza como povo agricola e industrial»...

segunda-feira, 16 de Fevereiro de 2009

O Casaco Rubicundo



Imaginem que, após tanto tempo sem colocar nada de novo neste espaço, reapareço com um conto escrito em Maio de 2005... Encontrei-o algures, achei-o neofárpico e, considerando-o pertinente, aqui vo-lo deixo. Quanto a novos textos, hão-de vir quiçá para breve...


*

Não, o rubicundo casaco não lhe ficava nada mal. Pode-se até dizer que a tornava mais excepcionalmente jubilosa, excepcionalmente insigne, excepcionalmente ilustre. Um lenço levemente puído abraçava-lhe o pescoço rugoso num aperto descontraído e um tanto desajeitado. As calças negras e rebrilhantes ocultavam uns tímidos sapatos ortopédicos. Talvez, de resto, o mais notório fosse apenas um ebúrneo colar de ornamentos finos e cuidadosamente retocados. E, acomodado ao colo da excelsa senhora, admirável dona, tia velha, um lindérrimo, lindíssimo, lindão cãozinho, cachorrinho, cãozão (vestido a rigor mais do que ela -pois até um colete, um lacinho, umas peúgas cor-de-rosa tinha!)... E deleitados, os olhos da sua amável vigilante, sua sempre fiel serva, quase nem piscavam de tão grande devoção. Neles espelhava-se o herói dos heróis, o juiz dos juízes, o galã dos galãs. Neles uma incrédula pena por quem não venerava o quatro-patas; uma repugnância, estranheza, confusão.

-Ai!, é um fofo. Um pêlo suave, tão querido...
A empregada de balcão (que a não ouvia) diria majestoso. E retorquiu:
-Quer também o cesto das frutas? São ao todo nove euros e noventa e nove cêntimos.
-Ai!, quero sim. Mas não é um fofo? Olhe, vou-lhe contar uma coisa. Ai!, minha mãezinha, como estou feliz... Sabe, o meu marido, o Custódiozinho, que até era bom rapaz, o menino, coitadinho, morreu...
-Nove euros e noventa e nove cêntimos, faz favor.
-Ai!, nem me fale. Tem toda a razão!... Nove! Nove longos dias padeceu enfermo. E lá se foi. Finou-se. Mas estou feliz, radiante, contente, felicíssima, radiantíssima, contentíssima.
-Faltam nove cêntimos.
-Sabe, é que melhor foi mesmo ter morrido ele. Imagine!, minha alma gentil, minha querida!, imagine se tivesse morrido o meu grã-bichano!...
-Volte sempre.
-O meu lindinho! Imagine!...
-Quem está a seguir?

E o rubicundo casaco lá disse por fim um adeusinho solitário e saíu porta fora da loja de conveniência. Deo gratias saíu e Deo gratias, segundo ele, o marido morreu-lhe.

O céu azul inocente e umas poucas nuvens vagorosamente vagueavam rumo ao nada. Tão deambulante como o mundo, o animal cheirou o jardim sujo e degradado em frente à casa da sua fervorosa e maternal ama.

Cheirou.
Defecou.

Uma cinza, a combinar, enevoava a paisagem urbana, e uma criança alegremente corria pela relva, pisava as quase túlipas, as quase magnólias, as quase hortênsias, os quase antúrios, os quase gladíolos, os quase malmequeres, e, por fim, e, por distracção, pisava as lustrosas e liquefeitas fezes, de um enjoativo amarelo-torrado, de um odor a imundície tenebrosamente horrível.

E ria para o pai:
-Olh’à bosta!

Riram também um milhão de micróbios e bactérias na sola do ténis do miúdo. Não causarão a sua morte, nem oxalá uma possível enfermidade. Mas casos houve em que assim aconteceu... E isto meditou um corcunda curvado que alheio meditava meditações num recurvo banco meditado.

E terminado o passeio, e já o sol morrendo, já a lua despertando, o rubicundo casaco lá clamou pelo seu amor, amor mais que amor-seu-marido...

Que afinal dono é ele, não ela: ele é o rei, é imperador.

Então mais um dia findou-se. Estrelas pelo Céu deste Caminho de Santiago rejuvenesceram o íntimo de quem anseia por algo melhor. E no coração do rubicundo casaco uma sempre presente submissão perante o mundo não racional, um querer torná-lo deus, um esquecer a dignidade humana, a higiene, a ética de não comandar a vida de quem não pode escolher.

Um sono de dia realizado pesou-lhe nos olhos.

Nesse dia e sempre o rubicundo casaco deu uma festinha saborosa ao seu amado, para que dormisse.

E de uma universal degradação e comodidade ouviu-se um eco retinente: a sublimação do pêlo-inocente.

Para que um dia se oiça nos egrégios templos: “Cão nosso, que estais na terra, beatificado seja o vosso nome, venha a nós o vosso reino de fezes e urina nos parques e passeios, e seja feita a vossa tão racional e nobre vontade. Ámen.”

quarta-feira, 13 de Fevereiro de 2008

Requalificação Artística do Património





«(...)Noi affermiamo che la magnificenza del mondo si è arricchita di una bellezza nuova: la bellezza della velocità. Un automobile da corsa col suo cofano adorno di grossi tubi simili a serpenti dall'alito esplosivo... un automobile ruggente, che sembra correre sulla mitraglia, è più bello della Vittoria di Samotracia. (...) Noi vogliamo distruggere i musei, le biblioteche, le accademie d'ogni specie e combattere contro il moralismo(...)


Não só de revistas light, como dizem os sabedores, vive o Homem. De tal forma é isto verdade e necessário que até os mais altos dignitários do (des)governo da nossa amável nação se renderam a livros que não os fáceis e gratuitos. Verdade seja admirada: os políticos descobriram agora o Manifesto Futurista de Marinetti. Feito nunca igualado: este de a novidade chegar até nós com apenas um século de atraso... E verdade seja sublinhada: não só o novo chegou com ligeiríssimo e irrelevante atraso como nós por cá consagrámo-lo heróico, hasteámo-lo exemplar, materializámo-lo como ninguém e nenhum artista nalgum outro país. Orgulhemo-nos! Que a História da Arte Europeia tem uma dívida para connosco, no-lo demonstra a verdade dos factos. Aqui se pretende, enfim, tão só lembrar o nosso feito, e congratular de honra e felicidade os que, alheios à vanguarda nacional, de todo desconheciam o que de seguida de apresenta, se venera, se contempla.



Ora, transeunte desatento, não mais deambule pela magna Lisboa respirando apenas a sua luz! Atente no pormenor, com toda a calma e estupefacção do mundo, atente na graça com toda a placidez e incredulidade. Dirija-se ao largo onde tem sítio a tão bem-afamada câmara municipal, bem perto da Praça do Comércio, do Terreiro do Paço.



Ante a beleza do edifício administrativo, deleite-se com o mais limpo e imaculado edifício religioso, à esquerda. Em nenhum outro lugar verá com esta sublimidade como rebrilha, alva, a cândida fachada; como reluz, iluminada, a pedra branca; como cintila, rubro, feérico e flamejante, ou de um verde sereníssimo e esperançoso, o semáforo.



Pois sim, temos que o templo tem um semáforo. E se, porventura, o leitor mais ingenuamente inocente se estiver perguntando se a casa-de-Deus ora adoptou este sistema para que mais não haja trânsito excessivo dentro dela, compreendam que por esta porta não entram pessoas senão carros.

Haja pudor na inferiorização constante de Portugal! Curve-se a Arte e o Universo ante a Excelência do nosso Génio!

Não, este parque de estacionamento não é uma ofensa à inteligência humana! É um grito de vanguarda futurista!

Não, não é um crime lesa-património! É a glorificação do Automóvel!

Não é a falta de sensibilidade, bom-senso e visão em, porventura, transformar o lugar num museu ou num teatro, quiçá num auditório! É a elevação devota do Gasóleo à condição de semi-Deus!

Não, não é um ultraje à riqueza arquitectónica e monumental de Lisboa! É um obséquio simpático que o povo dedica aos nobres que usufruem de tão sacra garagem particular!

Por favor, abram as mentes! Que se instale, de uma vez por todas, um stand de motociclos no Mosteiro dos Jerónimos. Adapte-se a Sé a uma montra da VolksWagen . Seja o Convento do Carmo um heliporto. Seja o Convento de Mafra um kartódromo e a nave do Mosteiro da Batalha uma pista de carrinhos-de-choque.

Aleluia!

quinta-feira, 31 de Janeiro de 2008

Democratização do Ensino Artístico



Portugueses, nunca o nosso país se mostrou tão vanguardista quanto agora.

Diria até que o governo do nosso país é o mais perfeito objecto de arte contemporânea: nunca, até agora, os políticos deste planeta vestiram tão surpreendentemente o papel de actores de artes performativas, criando verdadeiros happenings dialécticos, verdadeiras demonstrações de surrealidade e grandes demonstrações de demagogia ludibriantemente hipócrita, ignorante, non-sense.

Poderia citar belos exemplos. Deter-me-ei contudo com a mais bem acabada surrealidade do actual Ministério da Educação. Trata-se da «Democratização do Ensino Artístico».





Ora haja, antes de mais, aplausos. O Ministério pretende alargar a música a todas as crianças do primeiro ciclo (mais de um milhão e meio de alunos), que terão talvez duas horas semanais de aulinhas extra-curricularmente enriquecedoras. Que não haja péssimos professores suficientes, quanto mais professores minimamente competentes, não é problema. O Ministério quer, e pronto.

Ora haja, depois disto, mais aplausos. Com a anterior medida, pretende então o Ministério extinguir, por completo, a iniciação musical ministrada nos conservatórios, para economia de recursos. Não importa que os conservatórios deixem de poder formar músicos como os que formou ao longo de cento e setenta anos, músicos esses que constituem o corpo artístico de maior qualidade do país. Não importa que as aulinhas do primeiro ciclo, onde porventura os meninos irão aprender a cantar «O balão do João» e mais meia dúzia de cantigas enternecedoras, nada e rigorosamente nada tenham a ver com a especialização e exigência do ensino dos conservatórios. Não importa sequer que, depois, só se possa entrar no conservatório com uma idade bem mais avançada que o cientificamente ideal, nem que, para que possam entrar com a preparação que não tiveram e que desde sempre se exigiu, os pais desses alunos especialmente dotados tenham de pagar balúrdios a escolas privadas que os preparem.

Ora haja, ainda e cada vez com mais ímpeto, mais aplausos. O Ministério decidiu que o regime supletivo não funciona e, como tal, reduzirá o conservatório ao regime integrado.

Mas antes de mais aplausos, detenhamo-nos neste ponto. Depois sim, aplaudam furiosa, derisória e freneticamente.

O regime integrado consiste na frequência única e exclusiva de um curso no conservatório. O regime supletivo é aquele que permite ao aluno a frequência do conservatório paralelamente ao currículo escolar da maioria dos portugueses. Apesar de esta ser uma opção exigente e difícil a nível de carga horária, é a mais escolhida porque:

1) Não é no fim da escolinha primária que os meninos decidem ser médicos e descobrem imediatamente a sua vocação, tão pouco arquitectos ou engenheiros, vulcanólogos ou feirantes ou políticos. E a música não será, decerto, excepção. Ora mesmo que, findo o 12º ano, um integrado continue a ter a possibilidade de ingressar num curso superior de outra área, a sua formação revela-se incompleta, lacunar.

2) Os seres humanos não são seres monovocacionais e, caso não raro, dedicam-se a várias disciplinas e aprofundam prática e saber em várias áreas. Se o aluno é apto psicológica e fisicamente a suportar as aulas do ensino regular conjuntamente com o ensino da música, do mesmo modo que pode (e deve!) frequentar ainda outras actividades como o desporto e outras artes, por que razão decide o ministério retirar-lhe essa oportunidade?

Passemos a números. A título de exemplo, a Escola de Música do Conservatório Nacional, com cerca de novecentos alunos, passará a ter quarenta (o número de alunos do integrado).

Passemos à realidade prática. Centenas de alunos do Conservatório Nacional e dos Regionais serão obrigados a abandonar o seu desenvolvimento vocacional, a não ser que, caso raro, o agregado familiar possa suportar os custos de um ensino particular e, caso ainda mais raro, encontre a qualidade do ensino do conservatório nesse ensino particular.

Os alunos de canto, que só podem entrar, por razões fisiológicas, depois da mudança de voz, em idade relativamente avançada, ficam portanto excluídos completamente, já que, mesmo que quisessem entrar no regime integrado, não o poderíam fazer depois de acabarem a escolinha primária.

Mas não é tudo. O ministério chegou mesmo a pretender que as aulas de instrumento fossem leccionadas colectivamente. Esta ideia não cabe na cabeça de qualquer músico. Isto só revela uma ignorância tremenda do que é a complexidade e a especificidade do ensino musical, por parte das entidades ministeriais.

A ignorância é mesmo tanta que justificam o fim do regime supletivo com o suposto facto de os alunos "desistirem do curso", por não serem emitidos diplomas. Ora a maioria dos alunos os não chega a pedir, porque para entrar numa orquestra, num coro ou para realizar qualquer trabalho artístico não se apresenta um diploma: fazem-se audições.

Mas não, não precisam de aplaudir mais. Divulguem, isso sim, a mensagem, e ajudem a que esta pseudo-democratização não contribua para que Portugal fique cada vez mais na cauda da Europa, desta vez a nível cultural e formativo.

O Conservatório Nacional é uma instituição centenária, passaram por eles a grande maioria dos músicos eruditos de renome nacional e internacional. Centenas de profissionais de inquestionável prestígio estudaram em regime supletivo. O Conservatório organiza anualmente centenas de audições, concertos e recitais de música de entrada gratuita, contribuindo muito mais para a divulgação da música do que óperas emmanuelnunianas, e será certamente mais barato de manter que estas, se pensarmos também na riqueza que daí advém.

O alargar da educação a musical a todos os estudantes portugueses não tem nada, nem pode ter nada a ver com o conservatório. O primeiro trata da alfabetização musical dos cidadãos, o segundo da formação de profissionais e artistas amadores especializados.

Que país europeu não tem o seu Conservatório?

Pelos vistos, Portugal será o primeiro a deixar de ter o seu, e a perder um património cultural que muito dificilmente será recuperado, e que fará na História da Música Portuguesa e na História da Música Europeia uma ferida irremediavelmente trágica.

quinta-feira, 24 de Janeiro de 2008

Acordo Orthographico


Antes de mais, transcrevo uma mensagem que enviei ao «Ciberdúvidas da Língua Portuguesa», a fim de tomar alguns esclarecimentos.

Ei-la:

«
Escrevo para dizer que aprecio positivamente o Acordo Ortográfico. Porém, e deparando-me com a regra em que se menciona a indiferenciação gráfica entre para (preposição) e pára (forma verbal), não compreendi a lógica desta opção. De facto, até cheguei a fazer alguns exercícios (bastante caricatos) sobre como esta situação pode ser francamente confusa.

Passo o exemplo:

«Para para que possas reflectir,
para para que possas sonhar calmamente,
para que o teu trabalho seja frutuoso para,
para para olhar o teu redor
com a placidez dos sábios.
Para com as soluções gratuitas,
para com o facilitismo imprudente
para com a melhor das intenções
singrares depois num áureo caminho.»

Qual é, enfim, o sentido desta regra?
»

Agora, caríssimos neofarpianos, deliciem-se com a magna demonstração de como esta indiferenciação causa as maiores confusões e de como pode ser tão triste a argumentação da pseudo-vanguarda orthographica (entre colchetes alguns inevitáveis comentários):


«
O sentido da regra é a simplificação [Iluminou-me!]. Pára tem tido acento para não se confundir com a preposição para, mas a verdade é que o contexto normalmente evita a confusão.
Tem de aceitar que as frases que apresenta são todas agramaticais, se considerarmos a grafia para sempre uma preposição [Tenho de aceitar? Que com a nova ortografia o texto perca coesão e gramaticalidade? Aliás, onde disse eu que era para tomar "para" sempre como preposição? Como disse, o texto resultou de um jogo caricato entre as duas formas. Falha na interpretação lógica do texto!?]

a) Escrever duas preposições iguais seguidas contraria as regras, a não ser quando usadas enfaticamente [Aí é que está o problema. Não tenho nenhum caso desses no meu texto -nem quero ter!]
b) A vírgula no fim da terceira frase deixa a ideia em suspenso se quisermos considerar o segundo para como uma preposição [Desisto...]
c) A última frase está igualmente incompleta se considerarmos a grafia para sempre uma preposição (para isto, para aquilo e para mais aquilo… o quê?...) [Já percebi a ideia - e já percebi que não percebeu ou lhe não interessou perceber a questão em causa...]

O treino no uso da língua permite normalmente avaliar se o conjunto escrito tem coesão. Se aparentemente não o tem, o cérebro humano tende a corrigir o defeito em busca dum sentido coerente, para entender a mensagem (é essa ainda a sua grande vantagem em relação às máquinas, que ficam penduradas quando lhes aparece uma novidade no programa) [Genial!].

Por outro lado, o escritor que verdadeiramente se preocupa com os seus leitores usa as suas palavras por forma a que no contexto não haja ambiguidades (ex.: «Interrompe o que está a fazer, para que possas reflectir!») [Parece que para este Sr. uma língua se resume à prosa jornalística... Em outros registos a ideia de se preocupar com o leitor é, no mínimo, questionável e debilitadora do que é a arte e a criação literária... Renegaremos centenas de séculos de poesia? O texto que escrevi não é legítimo? Só pode sobreviver mutilado, com o acordo? Ridículo!]

No caso de o escritor pretender a ambiguidade e não se preocupar muito com a perfeição do texto [Perfeição? Que perfeição? Poética? Musical? Gráfica? Rètórica? Gramatical? Léxica? Conceptual? de conteúdo? Jornalística?], então até convém que a riqueza da língua o permita [Sem comentários...] Exemplo: «Para a decisão Alcochete, para o projecto Ota, de quem são os interesses beneficiados?” A segunda grafia de para pode dar vários sentidos à ideia: para sempre preposição permite pensar que havia interesses beneficiados quer numa solução quer na outra; com o segundo para forma verbal, o interesse seria de todos nós, nacional… ou muito o dos defensores da margem sul?...»

(Resposta do Sr. D'Silvas Filho, a 18/01/2008)
»

Enfim!... O douto gramático e filósofo acabou por não responder. Muito possivelmente não terá percebido tão complexo, difícil, engenhoso, estranhíssimo, completamente improvável, exageradíssimo textinho. Pena que de situações como esta possam estar centenas de livros recheados.

Já agora, para que não restem dúvidas:

«Pára para que possas reflectir,
pára para que possas sonhar calmamente,
para que o teu trabalho seja frutuoso pára,
pára para olhar o teu redor
com a placidez dos sábios.
Pára com as soluções gratuitas,
pára com o facilitismo imprudente
para com a melhor das intenções
singrares depois num áureo caminho.»

quinta-feira, 3 de Janeiro de 2008

2008

A todos os que me desejaram aquilo a que se costuma chamar "bom ano novo", o que eu nunca percebi bem o que é, que me perdoem por não ter retribuído. Mas prometo que não me esquecerei de vós no dia 10 de Janeiro nem no dia 29 de Dezembro de 2008 (Anos Novos Islâmicos), nem tão pouco no dia 7 de Fevereiro (Ano Novo Chinês), muito menos no dia 6 de Abri (Anos Novos Hindu e Maharastriano) nem no dia 7 de Abril (Anos Novos Telugu e Kannaduka), nem no Ano Novo Maia nem no Azteca nem no Olmeca nem no Persa nem no Hebraico nem até no Juliano nem no Budista nem no Etiópio nem no Bahá'í nem no Dário, que será o usado para relações terráqueo-marcianas, nem até no Francês Republicano que não vingou à força de tradicionalismos religiosos, nem no Japonês Antigo nem no Zoroastriano nem nas outras todas dezenas de calendários, alguns vigentes, outros em desuso.

E, por favor, agora que descobriram que o calendário é uma convenção do homem, e que a metronomização dos tempos não existe por natural, não se lembrem de bater panelas todos os dias neste 2008 de Gregório, nem, por favor, de pôr música a altos berros até às tantas da manhã, nem de sujar as ruas e deixá-las cheias de garrafas de cerveja, sacos de plástico e porcarias afins, nem, por favor, se engasguem mais a engolir passas nem tenham esperanças ridículas de que o «ano seguinte», seja o que isso for, seja melhor que o anterior. É que eu gostava de poder dormir em paz, de viver numa urbe limpa e de ter preocupações bem mais interessantes.

Porquanto seja ainda o Homem um ser da Natureza, e não uma artificialidade laboratorial. Porquanto o Homem seja livre da ditadura do preconceito e dos actos sem porquê. Que haja festa e fogo-de-artifício celebrando a Natureza, e não este sistema pontual de ilusões. Que haja esperança e desejos sempre que o coração bate, e não apenas quando uns números num papel de parede nos fazem lembrar de que o tempo passa.

Felicidades.

A Reforma Eclesiástica



Os dias de hoje prenunciam cada vez mais a descrença nos valores doutrinários com que a Igreja, durante tantos séculos, nos formou. Muito felizmente, vários jovens do mundo contemporâneo perdem-se na sina pecadora de viverem livres e alegres e mais conscientes do que são e do que é o mundo e a natureza. Infelizmente, também mais jovens enveredam por caminhos criminosos e de terrorista orientação.

Por isso, e por amar com especial dedicação os tesouros bafientos que decoram os templos, defendo a transladação destes mesmos para museus, e a substituição completa e total das representações de Jesus Cristo por representações do Pai Natal.

Ora é sabido que essa grande figura de barbas brancas e idade avançada, vestido de vermelho (como que lembrando um avô entre o excêntrico e o palhaço) incute nos mais pueris e queridos espíritos (e nos adultos de nobilíssima lucidez) um espírito tão de devoção quão de transcendente veneração. Não tenhamos mais ilusões: o Pai Natal é a figura central desta época em que acorrem milhões de peregrinos aos centros comerciais, fazendo juz à tradição de comprar oferendas aos familiares, amigos, patrões e outras pessoas com especial potencial estratégico.

O Natal cristão? Aquele de excelsa contemplação e de contenção, de repurificação interior, de meditação, de renovada solicitude? Por Deus! - a Igreja tem de acordar para a digníssima nova forma de viver o Jingle Bells.

Haja Pais Natais de peluche ancorados nas fachadas das igrejas, no altar, pendendo do pescoço de el-padre... Haja presépios com o Pai Natal a saudar a Virgem Maria com os demais duendes, luzinhas multicolores a coroar as auréolas dos anjinhos... Mude-se a hóstia por um bombom de chocolate! Mude-se o vinho por Coca-Cola!

Verá a Igreja como as populações de novo encherão os templos, de novo adorarão a Deus e frequentarão todas as missas para jamais perder os olhares crítico-domésticos da quotidiana mesquinho-vizinhança.

Não há que contrariar a ignorância e a estupidez. Foram elas que desde sempre alimentaram os mitos religiosos, e a Igreja nelas tem de continuar a investir nos dias de hoje. Por isso, sim: viva o Natal das prendinhas (muitas!, muitas!, muitas!), dos beijinhos e dos abraços (muitos!, muitos!, muitos!) e da solidariedade e da super-fraternidade (que no resto do ano, pelos vistos, não devemos ter com a mesma sensibilidade); Viva o Natal dos anúncios pseudo-emotivos de estrelas de televisão, a rogarem por contribuições esmolásticas (porque só no Natal existem pobres e estrelas de televisão de bom e humílimo coração); Viva o Natal do Bolo-Rei e dos enfartes e dos problemas digestivos (porque morrem no Mundo mais pessoas por excesso de comida do que por fome, e o Natal não há-de ser altura em que se deva contrariar tão brilhante hábito civilizacional)...

Viva!, Viva!, Viva!

Em nome dos shoppings, das renas e da ignorância santa. Amen.